Bombas de calor: o que muda numa casa portuguesa
A bomba de calor deixou de ser tecnologia de nicho e passou a ser a opção por defeito em construção nova. Mas a transposição para o edificado existente — que em Portugal é antigo, mal isolado e aquecido de forma intermitente — levanta questões que os folhetos comerciais não respondem.
Porque é que rende mais do que a eletricidade que consome
Uma resistência elétrica converte um kWh de eletricidade em um kWh de calor. Uma bomba de calor não gera calor: transporta-o do exterior para o interior. Por isso entrega três a cinco kWh de calor por cada kWh consumido, e é essa razão que se chama COP.
O COP não é constante. Desce quando a diferença de temperatura entre fora e dentro aumenta, ou seja, precisamente nos dias mais frios em que se precisa mais dela. Os valores anunciados são medidos em condições favoráveis; o número que interessa é o SCOP, que é sazonal e mais próximo da realidade.
O problema do edificado português
A bomba de calor trabalha melhor a produzir calor moderado de forma contínua do que calor intenso aos picos. Isso encaixa mal no hábito nacional de aquecer só a sala, só à noite, e a temperatura alta.
Numa casa sem isolamento, o equipamento funciona muito tempo a baixo rendimento para compensar perdas pela envolvente. O resultado é uma fatura que desilude e a conclusão errada de que a tecnologia não presta. O isolamento não é um complemento à bomba de calor — é a condição para que ela faça sentido.
A ordem correta das intervenções
- Reduzir perdas — caixilharia, isolamento de cobertura, tratamento de pontes térmicas. É o que baixa a potência necessária.
- Dimensionar depois — um equipamento escolhido antes do isolamento fica sobredimensionado e liga e desliga em ciclos curtos, o que gasta mais e dura menos.
- Baixar a temperatura de emissão — piso radiante ou radiadores de baixa temperatura tiram muito mais partido da bomba do que radiadores tradicionais.
Um ponto sobre a rede
A eletrificação do aquecimento desloca consumo do gás para a eletricidade e concentra-o nas horas frias da manhã e do início da noite. Do ponto de vista do sistema, a difusão destes equipamentos só é benéfica se vier acompanhada de flexibilidade — programação horária, acumulação de água quente fora de pico, e tarifários que premeiem o desvio.
É uma dimensão que se perde quando a decisão é tomada apenas ao nível de cada casa.